VITROLA VIRTUAL


OSCAR NELES



SOBRE MENINOS E LOBOS - Clint Eastwood

Uma das coisas que mais me deixa irritado são aqueles filmes baseados
em algum livro que distorcem toda a história, colocando personagens
que não existem, mudando o final e entregando à incauta platéia um
Frankstein de proporções gigantescas.
Claro que o produto final acaba sendo muito ruim, e eu nem estou sendo
muito rigoroso, pois sei que é dificílimo uma adaptação de qualquer
livro para o cinema, afinal são tantos personagens, histórias paralelas,
vários finais, que o trabalho do roteirista se torna às vezes o samba
do roteirista doido.
É por isso que existe o Oscar de Roteiro Adaptado, justíssimo por sinal.

Não sei sobre vocês, mas quando leio um livro costumo imaginar o rosto
das personagens, criar um pequeno filme na minha cabeça, sem falar que
meu rosto, via de regra, está carimbado no protagonista.

O filme feito a partir de um livro se constitui, então, em uma tarefa
das mais difíceis, pois imaginem quantas pessoas leram o livro, e não
vão concordar com a visão que o roteirista e o diretor tiveram para
transferir esse "filmezinho" de nossas cabeças para a telona?
Tudo isso se torna besteira depois de assistirmos a "Sobre Meninos e
Lobos", adaptado do livro de Dennis Lehane, uma obra-prima.

Faz muito pouco tempo que eu li o livro, portanto a história estava
fresquinha na minha memória, e as críticas altamente positivas que
chegavam do exterior só aguçavam a minha curiosidade, afinal eu tinha
adorado o livro.

Três amigos de infância são arrancados de sua inocência quando um evento
muda por completo a vida deles. Enquanto jogavam hóquei na rua um carro
para, e um homem que se diz policial manda um deles entrar, justamente
Dave, o mais tímido e calado.
Ele desaparece por alguns dias, depois consegue fugir do cativeiro
aonde foi estuprado pelos seus sequestradores, e a vida nunca mais será
a mesma.
Alguns anos depois, todos já adultos se afastam. Jimmy (Sean Penn) virou um
pacato dono de um pequeno mercado, depois de anos na bandidagem e algum
tempo na prisão. Sean (Kevin Bacon) se tornou policial e Dave (Tim Robbins),
o garoto sequestrado se tornou um adulto problemático, sem grandes
esperanças de sair do bairro aonde continuam morando, levando uma vida
medíocre.
A morte brutal da filha de Jimmy vai reaproximá-los, seja pelo fato de
que Sean é o policial encarregado da investigação, ou pq
Dave foi uma das últimas pessoas a verem a garota viva, em um bar.

Eastwood embarca então em uma visão extremamente pessimista da violência
nos Estados Unidos, criticando sutilmente a facilidade com que as pessoas
compram armas, o que pode estabelecer um paralelo com os filmes
que tratam sobre esse assunto, como o inédito "Elephant", de Gus Van
Sant e o celebrado "Tiros em Columbine", de Michael Moore.

Só que o buraco é mais embaixo, afinal uma escolha feita na infância,
no caso deles entrar ou não no carro, acaba tendo consequências
drásticas na vida de todos, o que foi explendidamente bem explorado no
livro, e que Clint Eastwood consegue mostrar, principalmente no quarto
final do filme, já que no restante temos basicamente um filme policial,
no estilo "whodunit". Não deixa de ser irônico essa crítica social,
pois Eastwood foi um dos grandes astros do típico "filme de macho",
com seu inesquecível Dirty Harry, policial que resolvia tudo na base da
porrada e de sua indefectível Magnum 44.

Resta enxergarmos a sensacional direção de atores, aonde o tão falado
trabalho de Sean Penn, realmente digno de Oscar, é ofuscado pela bela
atuação de Kevin Bacon, merecendo uma menção ao Oscar de melhor ator
coadjuvante, ao lado de Tim Robbins, que não brilha tão intensamente,
mas não atrapalha, apesar de ter o melhor papel de todos.

Eastwood é reconhecido pela sua economia, por entregar seus filmes
sempre dentro do prazo e não estourar orçamentos, pois ele dá liberdade
aos atores para algumas improvisações, sem aquelas coisas teatrais e
inúteis.
Menos é mais.
Para completar o pacote ele ainda compôs as músicas originais do filme,
mostrando mais uma vez toda sua sensibilidade e bom gosto musical.

Não que ele precise de mais um Oscar para comprovar suas qualidades
como Diretor, algo que ele já conseguiu com "Os Imperdoáveis". Mas esse
filme vem coroar uma incrível carreira de um dos astros mais versáteis
de Hollywood.
Veja o filme, leia o livro.
Leia o livro, veja o filme.

10/10

 Escrito por às 19h06
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COMBO COLDPLAY



Essa é a hora perfeita para os críticos de plantão, intelectuais e
"indies" atacarem o Coldplay.
Afinal eles saíram do anonimato para o megaestrelato mundial, com direito
a show no Brasil...
Os discos vendem milhões de cópias no mundo todo, as músicas fazem
parte da trilha sonora de vários filmes e séries televisivas, sem
contar aquelas que permanecerão como trilhas pereitas para algum
momento de nossas vidas. Entendeu o que eu quis dizer, certo?
E, se não fosse o bastante, Chris Martin, o líder e vocalista da banda
tá carcando a Gwyneth Paltrow.
É mole ou quer mais?
Essa entrada triunfal no mundo do mainstream mundial pode ser uma faca
de dois gumes, afinal os "indies" podem simplesmente torcer o nariz e
dizer que não gostam mais da banda pq eles simplesmente estão...fazendo
muito sucesso...deixaram de ser a "minha banda", que "eu descobri", e
agora são uma das mais conhecidas do mundo.
É muito fácil criticar assim, mas são motivos rasos, que carecem de
consistência.
Esse Blog vai contra a maré dos intelectuais que se dizem "descobridores-
da-melhor-banda-da-semana-até-que-ela-seja-conhecida-pelo-mundo-todo",
e proclama: Os caras são bons mesmo, e daí?
Primeiramente, como não respeitar um cara que tá pegando a ex do Brad
Pitt?
Falando sério, temos que voltar um pouco ao tempo, na época do lançamento
de "Parachutes", seu primeiro disco, um pouco desconhecido na época aqui
no Brasil, inclusive para esse Blog.
O disco foi eleito, se não me engano, o disco do ano na Inglaterra,
País que produz grupos legais em uma quantidade industrial, que só
encontra paralelo no Brasil e sua incrível capacidade de multiplicação
de pagodeiros, pseudo-sertanejos vestidos de Versace e "gênios" da MPB.
Fui capturado de cara pela beleza das melodias, tristíssimas, cinzentas,
lideradas pela voz aguda de Martin e suas intervenções ao piano.
O primeiro sucesso foi "Yellow", uma música de amor alegrinha, que logo
mostra o estilo Coldplay de ser: Uma base para as lamentações amorosas
de Chris Martin, despejadas em refrães de fácil assimilação, tipo
levanta-estádio, com os isqueiros todos acesos. É só escutar "Everything's
not lost" e imaginar toda a platéia cantando junto.

Vem o segundo disco, e a consagração total.
Dificilmente encontraremos um disco com tantas músicas que grudam de
cara nos nossos ouvidos dessa maneira. É só escutar "The Scientist" e
tentar não lembrar do falsete de Martin lamentando "Nobody say it was
easy...", ou então ter o seu coração partido com "A Warning Sign". Mas
é na maravilhosa "Clocks" aonde tudo faz sentido e a gente realmente
pode imaginar que a música pode ter salvação.
Não acredita?

"Come out upon my seas,
Cursed missed opportunities
Am I a part of the cure
Or am I part of the disease, singing..."


Quando o talento musical se junta a uma poesia inspirada, com zero de
pretensão podemos perceber que tudo começa a fazer sentido.

Qual o próximo passo? Muitos shows, e o tão esperado Dvd, que é lançado
junto com o disco ao vivo, com a opção de ver ou escutar o show em um cd
incluso. Eu, pessoalmente, não gosto de discos ao vivo, afinal um show
nunca vai traduzir o que o grupo conseguiu realizar em estúdio, com
todas as possibilidades que uma produção esmerada coloca em um disco,
mas, por outro lado, um disco de estúdio nunca vai mostrar a entrega do
grupo, a receptividade da platéia e a interação entre eles, elementos que
fazem um show ser memorável ou não.
O Coldplay, com suas melodias simples consegue o melhor dos dois mundos,
com versões praticamente iguais das músicas em estúdio, aonde podemos
perceber o esforço do vocalista em falsear sua voz e o total despojamento
do resto do grupo.
Shows são para ser vistos, portanto se algum de vocês perdeu o show do
Coldplay no Brasil, a oportunidade é essa.

"To my surprise
And my delight
I saw a sunrise
I saw a sunlight."



 Escrito por às 19h11
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