VITROLA VIRTUAL


OBSESSÃO

"O que é belo não morre: transforma-se em outra beleza."
(Balley Ardrich)

A morte, como um fenômeno antinatural, já que eu acredito firmemente que não fomos criados para morrer (isso seria conversa para um bom post filosófico, mas esse é um blog musical. Se vcs quiserem comentar isso, sintam-se à vontade), pode produzir alguns fenômenos musicais que se relacionam, de uma maneira ou de outra com a morte, transformando certos artistas, até então meros mortais, em mitos. Ou mártires de uma causa desconhecida.

Vamos falar de alguns artistas que, de alguma forma, se relacionam com esse tema proposto.

JEFF BUCKLEY - Live at Sin-é

Jeff Buckley, em um surto de burrice generalizada resolveu nadar vestido no Rio Mississippi, morrendo afogado logo depois, não sem antes lançar um dos discos mais difíceis de serem escutados em todos os tempos.     Explico.

Em um pequeno café em New York, ele desfila uma série de canções própris e de artistas que o influenciaram, com uma interpretação tão apaixonada, tão visceral, que a própria audição do disco todo (são 38 faixas, aí incluídos alguns "monólogos", como eles chamaram, tão interessantes quanto a própria música) se torna angustiante, já que, pelo menos para mim, sua voz em tom de falsete teimava em me lembrar de como a vida pode ser valiosa. E isso simplesmente com sua guitarra e mais nada. Sem nenhum efeito, com uma platéia quase que reverente, sem saber que estavam presenciando ali um momento único em suas vidas.

Do mesmo modo que ele conseguia ser quase raivoso, como na interpretação de "Night Flight" do Led Zeppelin, era inescapável uma sensação de alívio quando ele brincava com a platéia, chegando a misturar "Smells Like Teen Spirit" do Nirvana com o cantor Nusrat Fateh Khan. Ou um próprio "Ladie's Man", com as canções de amor de Van Morrison que ele teimava em interpretar, arrebentando com o coração de algum incauto que estivesse ali curando uma dor de cotovelo.

A verdade é que sua morte acabou criando um mito que poderia mostrar muito mais do que simples interpretações, nada óbvias por sinal, de artistas consagrados, como Bob Dylan. Uma coisa é certa: Nada pode nos preparar para escutar a maravilhosa versão de "Hallelujah" de Leonard Cohen que fecha o disco. Não tenho a menor vergonha de dizer que precisei me segurar, já que a garganta apertou nessa hora.

Obsessão com a morte parece ser também algo que sempre acompanhou Eliott Smith, um artista de talento apenas comparável à sua grande tristeza interior.

        

Eliott Smith - Eliott Smith e Either/Or

 Não dá para imaginar um jeito mais cruel de morrer do que enfiar uma faca no próprio peito. Já me peguei pensando sobre a estúpida morte dele e não entendo como uma pessoa pode chegar ao ponto de tirar a própria vida, ainda de uma maneira tão dolorosa. Fascínio pelo desconhecido, pela morte. Incapacidade de lidar com o sucesso, que batia à sua porta após a apresentação no Oscar pela música feita para o filme de Gus Van Sant "Gênio Indomável". Paixão pela música.

Acabei comprando quase tudo dele, obcecado pela beleza de suas canções, pela sua história e, principalmente por "Rose Parade". A música mais bonita de Eliott Smith, que depois de um começo essencialmente cadeira-violão no disco que leva o seu nome, introduziu alguns arranjos mais sofisticados naquele que é considerado seu melhor disco: "Eiher/Or". Voz tranquila, que escondia uma extrema insatisfação meio punk poderiam até enganar algum ouvinte mais desavisado, mas é bom conhecer as razões de um artista lançar discos tão amargos e tristes.

         

Eliott Smith - XO e Figure 8

O ápice dessa nova inserção de elementos mais sofisticados. Discos excepcionais, que apresentaram Smith ao mainstream, já que nessa época seu nome era falado no País todo por causa da indicação de sua música "Miss Misery" ao Oscar de melhor canção. Flertes com o pop descarado não deixaram de lado sua introspecção, mas uma evolução natural da qualidade técnica de seus discos era notada. "Figure 8" pode ser seu disco mais bem produzido, um pouco sem o charme juvenil de tempos atrás, mas, infelizmente não tivemos chance de ver um artista em sua total maturidade, que quase conseguiu encontrar a desejada junção do indie com o comercial. Uma pena.

Um certo preconceito para com artistas assim foi dizimado da minha vida, juntamente com uma série de gostos musicais que, um certo tempo atrás, nunca frequentariam a minha coleção de discos. Foi através de revistas que tomei conhecimento de artistas assim. Antes eu não poderia imaginar que o folk poderia conviver junto com o rock, ou que o country-rock não fosse aquela coisa brega que eu sempre pensei que era. Ainda bem. Conceitos mudam, as pessoas evoluem. Nick Drake está aí para provar isso.

Way to Blue - An Introduction to Nick Drake

Ele que me iniciou nessa seara. Foi através de uma singela música chamada "Pink Moon" que todos os antigos preconceitos foram quebrados e jogados no lixo. A morte, coisa inerente à música nessa caso, mais uma vez me salvou, por mais paradoxal que isso possa ser. A vida é celebrada aqui, com um fundo musical que pode muito bem ser triste e melancólico, mas nos faz olhar para trás e repensar atitudes que fatalmente carregaríamos para o resto de nossas vidas.

A música maravilhosa de Nick Drake me colocou para pensar. "Cello Song", "River Man", "Hazey Jane", é só escolher. A poesia intimista, misturada com sua voz suave servem bem mais do que terapeutas para pessoas bem resolvidas, mas com um futuro meio que claudicante. Escute Nick Drake. De preferência com a amada(o) ao seu lado. Pode parecer uma coisa extremamente babaca, mas eu realmente acredito no poder terapêutico de uma música e, nesse caso, "Pink Moon" teve uma influência incrível. Quebra barreiras e liberta corações.

Ele morreu com uma overdose de tranquilizantes. Mais uma vez a morte venceu, diminuindo a vida de um grande artista e, de quebra, diminuindo a beleza no mundo. A música liberta. Pode acreditar.

"Os homens são como ondas: quando uma geração floresce, a outra declina." 
(Homero)




 Escrito por Osorio Coelho às 18h56
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A VERDADE ESTÁ LÁ FORA

Depois de um longo e tenebroso inverno, é hora de tirar as teias de aranha do computador e falar um pouco sobre o que realmente interessa: Boa música. Durante o mês inteiro vou listar, com alguns comentários, todos os discos que comprei no período, para discutirmos, xingarmos o gosto alheio e, principalmente, sacanearmos quem não entende bulhufas de música. Prepare-se.

PAUL WELLER - Fly on the Wall 

Vou ser justo. Se não fosse o Rob da famosa loja ChampVinyl, eu não estaria escutando Paul Weller hoje. Logicamente já o conhecia por sua história com o The Jam e o Style Council, mas eu nunca tinha parado para efetivamente apreciar o seu trabalho.

Quem conhece imagina o quanto eu estou me punindo hoje por ter demorado tanto tempo em conhecê-lo.

Vamos por partes. O disco Fly on the Wall é um apanhado de sua carreira a partir do ano de 1991 até o ano de 2001, o que resultou em um disco triplo com sobras de estúdio, algumas remixes e lados B. Mas o grande filé mesmo vem no terceiro disco, que falaremos mais tarde. Bandas como o grande Ocean Colour Scene e o The Charlatans devem provavelmente toda a sua existência a Paul Weller, que mostra grande forma na guitara em uma mistura de soul music com o mais elaborado brit pop, sem esquecer sua grande influência mod, lá dos anos 60 mais ou menos.

São tantas músicas que fica difícil citar algumas sem cair no lugar-comum de que todas são imperdíveis e essenciais. Por isso prefiro me deter um pouco mais no disco 3, o grande filé do pacote, aonde Weller homenageia com covers belíssimas alguns dos pilares do Rock, como a bela "Ohio" de Neil Young, a sacolejante "Fellin' Alright" do Traffic, "I Shall Be Released" de Bob Dylan ou "Don´t Let me Down" de Lennon & McCartney. Mas a grande surpresa mesmo fica no crossover de Kill Bill Vol. 1 com Paul Weller.

Estranho?

Nem tanto, aonde ele simplesmente (é um sacrilégio falar isso...depois eu explico...) melhora a versão de Sonny Bono para  "Bang Bang" , a música que inicia o sensacional filme de Tarantino, na voz de Nancy Sinatra. Escute e depois me diga se não é verdade.

O que eu posso falar é que viciei tanto no som dele que acabei comprando também os básicos "Wild Woods" e "Stanley Road", indicações também do pessoal da ChampVinyl, que vão ficar para um post futuro, pois tenho muito o que falar de muitos discos.


Você teria coragem de comprar hoje uma indicação do Lucio Ribeiro sem escutar antes? Eu caí nessa besteira e acabei comprando Yeah Yeah Yeahs e The Vines.

Foi mal aí...



 Escrito por Osorio Coelho às 18h03
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