O SOM E A FÚRIA
Vivemos em tempos estranhos, aonde ao mesmo tempo em que a ultra-direita americana evoca a Bíblia sagrada em uma cruzada do bem versus o mal, no extremo oriente continuam matando em nome do pretenso deus deles. Não é de se estranhar, portanto, que essa visão da típica destruição do antigo "American Way of Life" seja abordada pela música através de artistas que se utilizam da política do "contra tudo o que está aí..." como força motriz.

O crossover de estilos tão díspares como o rock e o hip-hop, ou mesmo o funk, transformou-se em algo banalizado pela ganância dos executivos, ávidos por conseguir capitalizar ao máximo em cima daquele novo rótulo que surgia com essa fusão, o malfadado Nu-Metal, ou New-Metal, como quiserem. A verdade é que o que poderia ser uma saudável junção de dois estilos musicais acabou modificando um pouco o foco da principal questão que será discutida aqui: O rock engajado e panfletário das bandas Rage Against the Machine e System of a Down, talvez um dos poucos suspiros de renovação do rock pesado da última década, já que na virada do milênio o RATM já acabou, dando lugar ao excelente Audioslave. Não por acaso as duas bandas são uma mistura de estilos pontuados pelos poderosíssimos riffs de guitarra, servindo como base para um discurso altamente explosivo e contestador, criticado por muitos como vazio e ingênuo, mas, na minha opinião bem vindo e absolutamente necessário.
Tom Morello e Zake de la Rocha, respectivamente guitarra e vocal eram os típicos porta-vozes da banda, que sempre se caracterizou pela metralhadora giratória de suas letras, apoiando desde o exército Zapatista até a libertação de Mumia Abu-Jabal de uma prisão nos Eua. Musicalmente falando posso dizer que foi uma das poucas vezes que uma banda de rock pesado efetivamente me emocionou pela sua integridade e, principalmente, pela potência sonora de sua música, ao mesmo tempo básica e simples. Citei apenas 2 discos, pq os considero os melhores da curta carreira da banda, que fez a alegria do pessoal do mosh e do stage-dive nos seus shows, que não raro terminavam em homéricas confusões com a polícia e a multidão, incitada pelas letras contestadoras de Zake de la Rocha. Ao mesmo tempo que "Bulls on Parade" consegue ser uma massa concreta do mais puro rock'n roll, entupido com efeitos na guitarra de Morello, a influência funk se faz notar em "Vietnow". A potente melodia (?) surgia em primeiro plano juntamente com o discurso politizado, como escutamos em "Revolver" e "Without a Face", mas o melhor mesmo deles era quando a fúria se juntava ao ritmo, como em "Snakecharmer".
Tom Morello, um dos guitarristas mais inventivos e originais de sua geração atingiu sua maturidade juntamente com a banda em "The Battle of L.A.", o melhor do RATM em minha opinião. Em sua forma mais coesa a banda despeja uma massa sonora capaz de criar zumbidos no ouvido de qualquer um como em "Testify" e, em especial, em "Guerilla Radio", o auge do RATM. Alarmes, helicópteros, buzinas, tudo saía da guitarra de Morello, e o crossover Hip-Hop/Metal atingia seu ápice em "Calm Like a Bomb". Eles mostraram que sim, foi possível fazer o rock soar menos ingênuo, aonde letras conspiratórias se juntavam a uma parede sonora, sem cair na contestação vazia e mala.

O System of a Down já possui uma proposta diferente, colocando no liquidificador desde trash-metal, punk, Mr Bungle até mesmo...Oingo Boingo, ou nenhum de vcs percebeu como a voz do vocalista Armênio Serg Tankian às vezes se parece com o Danny Elfman?
A produção cristalina de Rick Rubin consegue explorar todo o potencial da banda, aonde nenhum instrumento se sobressai, unificados de maneira admirável. Poucas vezes um disco de metal foi tão bem produzido como os do SOD. Dignos de nota são o já citado vocalista, que alia dotes operísticos-teatrais com urros que bem poderiam estar em alguma grotesca banda de trash, como o Sepultura, e o extraordinário baterista, dono de técnica refinadíssima, aonde o peso e a rapidez do rock se misturam a invencionices jazzísticas.
Mais uma vez a sociedade Americana é desmistificada através de músicas que pregam o fim dessa situação (Toxicity), ou através da profética "Prison Song", que fala dos abusos em prisões americanas. Ironia é i que não falta em I-E-A-I-A-I-O, citando desde o Superman até o intocável Homem-Aranha. Assim como o País, ninguém possui essa qualidade (Fuck the System). O maior inimigo do atual governo Bush, o cineasta Michael Moore foi chamado para dirigir o clipe de "Boom", que retrata o próprio Presidente como um dos 4 cavaleiros do apocalipse.
Todas as formas de arte devem mostrar, através de filmes, peças e composições que o engajamento político não é apenas um sonho pertencente a pessoas que injustamente são tachadas de alienadas e agitadoras. Contestação é a própria essência da música. Ainda bem.
Escrito por Osorio Coelho às 18h23
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