WHITE STRIPES – GET BEHIND ME SATAN

Na Bíblia, no Livro de Lucas, Jesus, após ser tentado pelo demônio, recusa a vulgaridade do que poderia ser chamado à época, das tentações seculares e da danação eterna. O óbvio paralelo estabelecido entre Jesus e Jack White, no seu novo disco "Get Behind me Satan" (Vade Retro Satanás) , e vamos aqui esquecer toda a polêmica religiosa, fica claro quando, após o mega-sucesso do disco anterior, o sensacional "Elephant" , ele, literalmente, vira as costas para o conformismo pop e lança um trabalho que pode definitivamente colocar a banda em um patamar elevadíssimo.
Aprisionado pelo sucesso de "Seven Nation Army" , um dos grandes responsáveis pelo crossover entre as pistas de dança e o rock, Jack White criou uma grande expectativa com seu novo disco. Seria de se imaginar que o clima blues-garageiro continuasse, já que anabolizados pelo disco antigo, a forma seria repetida à exaustão, e, de uma certa forma, ela foi repetida apenas na primeira música, o petardo "Blue Orchid" , que só faz confirmar a incrível capacidade de White criar riffs ao mesmo tempo viscerais e pegajosos. Já dá até para imaginar ela sendo remixada para as pistas de dança, com sua batida demoníaca, preenchida pelo falsete de White. Mas, assim como Jesus, ele subverte a lógica e busca nas raízes do rock a inspiração necessária para a continuação de seu 5º, e extraordinário disco. Uma diabólica mistura de Bluegrass, Hendrix e ragtime.
Em outro típico exemplo de subversão, já que a primeira faixa instiga a alma, ele deixa de lado na maioria das músicas o arquétipo guitarra-bateria-voz para investir em um clima mais intimista e esquisito, com piano e marimba. Desse modo ele instiga o nosso espírito. A sujeira, marca registrada das bandas de Detroit, fica em segundo plano, dando lugar às melodias pop (My Doorbell) com "riffs" de piano, como em e "The Denial Twist". O lado baladeiro, estilo cantor de bar no final da noite aparece nas lindas "White Moon" e em "I’m Lonely But I Ain’t Lonely Yet", que copiia descaradamente o início de "Changes" , do Black Sabbath. Além de "Blue Orchid" , Jack White mostra a face garageira da banda na Hendrixiana "Red Rain" e em "Instinct Blues", que mostra porquê o Led Zeppelin é uma das maiores influências.
Além de todo esse mosaico, Jack White ainda brinca com simbolismos cristãos no disco todo, como no caso da maçã branca que Meg White segura, podendo, em uma livre interpretação, ser encarada como o próprio fruto proibido do livro de Gênesis, que signifcou a queda do Homem, não fosse o fato de que a maçã está intacta. Mais uma vez eles se rebelaram contra o establishment, representado nesse caso pela entrega da alma em troca do sucesso? Ou então a foto final do encarte, que nos remete à famosa obra "La Creazione dell’ Uomo" , de Michelangelo, localizada na Capela Sistina de Roma, onde Deus concede o dom da vida a nós, seres humanos.

Jack White recebeu de Deus um incomparável talento, e uma imensa coragem para desafiar as atuais regras de mercado, com o lançamento de um disco que dificilmente será menos do que o melhor do ano. Amém.